Plutão retrógrado — transformação em câmara profunda
Quando olhamos para os ritmos solenes do cosmos, deparamo-nos com o passo imperceptível de Plutão. Na tradição astrológica e na psicologia arquetípica, esta pequena e gelada esfera situada nos limites do nosso sistema solar desempenha o papel de guardiã do limiar invisível, o Senhor das Profundezas, Hades. O trânsito de Plutão direto costuma atuar nas estruturas manifestadas, forçando ruínas necessárias e exigindo a purificação da matéria desgastada. Contudo, quando o planeta inicia seu ciclo retrógrado anual, que se estende por aproximadamente cento e sessenta dias — quase metade de cada ano —, o cenário de sua atuação sofre uma alteração dramática. A ópera silenciosa da destruição e da regeneração deixa de ser encenada nos palcos externos do mundo social e passa a se desenvolver na câmara mais profunda do coração humano.
Nesta câmara escura do ser, o movimento aparente para trás convida a consciência a descer as escadas em espiral do inconsciente. Ao contrário das retrogradações de planetas pessoais, como Mercúrio ou Marte, cujos impactos no cotidiano se fazem sentir em ruídos de comunicação imediatos ou em bloqueios visíveis de ação, a retrogradação plutoniana é de natureza transgeracional e subterrânea. Ela não busca perturbar as transações diárias do ego, mas sim reavaliar os fundamentos silenciosos sobre os quais toda a estrutura da nossa personalidade se ergue. Trata-se de uma convocação solene para sentarmo-nos diante dos nossos próprios fantasmas, despindo as máscaras sociais que construímos ao longo da vida externa e contemplando, sem artifícios ou evasivas, o que está verdadeiramente maduro para morrer e o que está pedindo permissão para finalmente nascer.
A câmara profunda a que nos referimos é o laboratório alquímico do espírito, o espaço íntimo onde a alma se depara com o silêncio que precede as grandes mutações. Sob o influxo de Plutão retrógrado, o barulho do mundo perde gradativamente sua capacidade de nos distrair de nossa essência. As ambições que ontem pareciam urgentes, os conflitos externos que demandavam nossa atenção apaixonada e as disputas de poder que consumiam nossa energia começam a perder o brilho. Essa interiorização não deve ser confundida com melancolia estéril ou depressão, mas sim compreendida como a necessária hibernação da semente que, sob a terra escura do inverno, prepara silenciosamente as raízes que sustentarão os frutos da próxima primavera astrológica.
O fenômeno astronômico
Para compreendermos o impacto psicológico deste trânsito, é imperativo que nos debrucemos primeiramente sobre a reality astronômica deste andarilho das margens celestes. Plutão reside em uma região do espaço caracterizada pela escuridão perpétua, orbitando o Sol a uma distância média de quase seis bilhões de quilômetros. O seu ano astronômico, ou seja, o tempo que leva para completar uma única revolução ao redor da nossa estrela, estende-se por duzentos e quarenta e oito anos terrestres. Devido à extrema excentricidade de sua órbita elíptica, ele passa períodos de tempo muito variáveis em cada um dos signos, oscilando entre doze e trinta anos. Esta lentidão quase impenetrável faz com que sua movimentação no céu seja predominantemente de natureza geracional, moldando os impulsos inconscientes de épocas inteiras.
A retrogradação de Plutão, longe de ser um desvio real do planeta de sua rota cósmica, é na verdade um fenômeno de perspectiva, uma ilusão de óptica que se manifesta a partir do nosso ponto de vista terrestre. Uma vez por ano, a Terra, movendo-se em uma órbita muito mais rápida e interna, ultrapassa o gigante de gelo. No momento dessa passagem cósmica, Plutão parece estacionar na abóbada celeste e, em seguida, iniciar um lento retrocesso contra as estrelas. Esse aparente movimento para trás dura aproximadamente cento e sessenta dias. Matematicamente, isso significa que Plutão passa quase metade de sua existência em estado de retrogradação, revelando que esse ritmo interno não é um desvio patológico, mas sim uma pulsação regular e orgânica.
Devido a essa lentidão colossal, a retrogradação de Plutão não se manifesta como um choque repentino ou um evento isolado que irrompe em uma tarde qualquer, como costuma ocorrer com Mercúrio. Pelo contrário, ela se assemelha a uma estação geológica da alma, um longo período de transição cujos efeitos são cumulativos e sutis. O verdadeiro foco deste movimento não reside nos dias exatos de sua estação direta ou retrógrada, mas sim no trânsito paciente e contínuo que o planeta realiza através de uma área específica do nosso mapa astral individual, onde as antigas fundações de nossa vida estão sendo lentamente examinadas.
Por que Plutão é importante na astrologia
No rico panteão da astrologia arquetípica, Plutão ocupa o lugar do alquimista supremo, o regente de todos os processos de morte e renascimento, destruição construtiva e regeneração. Associado à antiga divindade grega Hades e ao deus romano Pluto — que governava não apenas o reino dos mortos, mas também as riquezas incalculáveis escondidas sob a terra —, este arquétipo nos lembra que as transformações mais valiosas da vida humana ocorrem longe dos olhos do mundo, no segredo do subsolo psíquico. Plutão rege a força dos instintos primordiais, a resiliência visceral que nos permite emergir das cinzas da tragédia e a busca implacável por uma verdade que não aceita concessões ou máscaras. Ele é a força cósmica que destrói o que é falso para salvar o que é essencial.
A importância de Plutão na leitura de um mapa astral reside no fato de que ele aponta diretamente para o local onde guardamos nossas maiores feridas de controle, nossos medos inconscientes de vulnerabilidade e, simultaneamente, nosso potencial mais extraordinário de regeneração e poder pessoal. É a energia da mortificatio alquímica, a fase de purificação pelo fogo onde tudo o que é supérfluo e ilusório é reduzido a cinzas para que a essência pura possa finalmente se revelar. Negar a força de Plutão em nossa vida equivale a tentar deter o ciclo natural das estações, ignorando que o inverno é o útero indispensável da primavera. Onde Plutão toca, somos confrontados com a necessidade imperiosa de abrir mão do controle artificial do ego.
Quando Plutão se encontra em seu movimento direto, seu impulso transformador tende a se manifestar por meio de dinâmicas externas e projeções no teatro social. É o período em que testemunhamos crises institucionais, a queda de líderes e disputas coletivas de poder. Contudo, com o advento da retrogradação, esse imenso vetor de energia plutoniana sofre uma inversão de cento e oitenta graus, recolhendo seus raios do mundo manifesto para direcioná-los aos abismos da nossa própria interioridade. A pergunta que antes era direcionada aos outros transforma-se em um sussurro direcionado ao nosso próprio íntimo: 'onde eu mesmo tenho sido tirânico ou manipulador?'. Essa inversão arquetípica torna a retrogradação de Plutão um dos períodos mais fecundos para a individuação psicológica, retirando das mãos do ego as desculpas fáceis da projeção.
Transformação volta-se para dentro
O sintoma cardeal que assinala a entrada de Plutão em seu estágio retrógrado é a percepção sutil, porém inegável, de uma quietude grávida de significado, uma mutação interna que dispensa o clamor dos eventos externos para se consolidar. Trata-se da vivência da morte simbólica, onde versões antigas de nós mesmos começam a se desintegrar silenciosamente nos bastidores da nossa consciência. Não há necessidade de divórcios estrondosos ou rupturas físicas imediatas para que o processo de transformação seja real; o verdadeiro drama plutoniano ocorre sob a superfície. É a constatação silenciosa de que certas roupagens identitárias e papéis sociais que desempenhamos por anos com orgulho perderam sua seiva vital, tornando-se vazias como cascas de cigarra presas ao tronco de uma árvore.
Na tradição hermética da alquimia, esse estado corresponde à fase da nigredo, o estágio da putrefação onde a matéria-prima é submetida a um processo de decomposição e enegrecimento em um recipiente fechado. Para o olho destreinado, a nigredo pode parecer um estado de estagnação melancólica, uma ausência desoladora de movimento. No entanto, o alquimista experiente sabe que esta decomposição é a condição indispensável para a liberação dos elementos mais puros que estão aprisionados na forma antiga. Durante Plutão retrógrado, somos chamados a nos tornarmos esses alquimistas pacientes de nossa própria alma, aceitando o desconforto de não saber quem somos por um tempo, permitindo que a velha identidade se liquefaça para que os novos potenciais possam finalmente se organizar.
Existe, porém, um perigo imenso na resistência a este chamado interior de dissolução. Diante dos primeiros sinais de que a velha estrutura de vida está ruindo por dentro, a reação mais comum é o desespero e a tentativa obstinada de manter as aparências a qualquer custo, reforçando as defesas psicológicas e agarrando-se a comportamentos obsessivos de controle. A consequência inevitável dessa repressão é que a transformação que foi negada na câmara secreta do inconsciente acabará sendo forçada a se manifestar no mundo externo com uma violência desmedida. Quando Plutão finalmente retomar o seu movimento direto, a energia acumulada romperá as barreiras da repressão sob a forma de crises externas avassaladoras. Portanto, honrar a transformação que se volta para dentro é a arte de ceder conscientemente ao fluxo da morte simbólica.
Sombra pessoal emergindo
Um dos capítulos mais desafiadores da temporada de Plutão retrógrado é a emergência inevitável da nossa própria sombra pessoal. Na psicologia analítica formulada por Carl Gustav Jung, a sombra representa a totalidade daqueles aspectos da nossa personalidade que, por serem considerados incompatíveis com a nossa persona — a máscara social que apresentamos ao mundo para sermos aceitos —, foram sistematicamente rejeitados e exilados no inconsciente. Quando Plutão se move em linha direta, a nossa tendência natural é projetar essa sombra sobre o ambiente externo, enxergando com facilidade a maldade nos outros, a manipulação nos discursos alheios e a tirania nas atitudes dos nossos governantes, mantendo intacto o nosso sentimento de superioridade moral.
Durante os longos meses da retrogradação plutoniana, contudo, esse mecanismo de projeção começa a falhar. O espelho que antes apontava para fora vira-se implacavelmente em direção ao nosso próprio rosto. As acusações veementes que fazíamos ao mundo exterior começam a ecoar internamente como perguntas incômodas. Somos confrontados com a constatação de que a sombra que tanto condenávamos no outro também habita em nós. Começamos a perceber nossa própria raiva reprimida, que se manifesta como sarcasmo; a nossa inveja inconfessável, que disfarçamos sob o manto da crítica; e a nossa necessidade obsessiva de controle, que justificamos como mero zelo. Este encontro face a face com a nossa sombra pessoal não deve ser encarado como um tribunal moral, mas como um convite à integração de uma energia valiosa.
Essa dinâmica de integração faz com que os meses em que Plutão está retrógrado sejam o período mais propício do ano para o aprofundamento de processos terapêuticos de orientação analítica ou junguiana. Sob a influência deste trânsito, as defesas do ego tornam-se ligeiramente mais porosas, facilitando o diálogo com o inconsciente e permitindo que materiais reprimidos há décadas — traumas de infância e padrões de comportamento repetitivos — venham à tona em um ambiente seguro para serem finalmente metabolizados pela consciência. Trabalhar terapeuticamente com a sombra sob a égide de Plutão retrógrado exige uma coragem incomum, mas os resultados são de uma beleza indizível. À medida que recolhemos as nossas projeções e assumimos a responsabilidade pela totalidade do nosso ser, experimentamos uma profunda liberação de energia psíquica, resultando no nascimento de uma personalidade mais centrada e autêntica.
Poder pessoal sendo recuperado
O tema do poder é indissociável da assinatura astrológica de Plutão. Contudo, é fundamental distinguir entre duas manifestações distintas dessa energia: o poder externo, caracterizado pela dominação e manipulação sobre o outro, e o poder pessoal autêntico, que se origina da soberania interna e do alinhamento inabalável com a própria verdade essencial. Durante o movimento direto de Plutão, somos muitas vezes seduzidos pela disputa do poder externo. Na retrogradação, todavia, o cosmos nos força a olhar para a nossa própria cumplicidade nas dinâmicas de poder de nossa vida, revelando com clareza os locais onde abrimos mão de nossa soberania em troca de segurança ilusória ou aceitação social.
É um fenômeno comum entregar o nosso poder a terceiros sem percebermos. Cedemos a nossa capacidade de escolha aos nossos pais, mantendo-nos aprisionados em dinâmicas de busca eterna por aprovação. Entregamos a nossa autonomia aos nossos parceiros afetivos, permitindo que suas opiniões definam o nosso valor pessoal. Submetemo-nos a uma servidão psicológica sutil no ambiente de trabalho, enxergando em nossos chefes figuras paternas projetadas. Até mesmo a instituições coletivas entregamos com facilidade a nossa autoridade de pensar e sentir por nós mesmos. Plutão retrógrado surge como a grande oportunidade de desatar esses nós invisíveis de dependência psíquica.
Esta recuperação de poder não se faz acompanhar de confrontos físicos dramáticos. Ela se manifesta como um silêncio denso e inquebrantável, uma solidez interna que se recusa a se curvar perante as pressões do ambiente externo. É o estabelecimento de limites saudáveis e firmes que não precisam ser justificados ou debatidos; eles simplesmente são. Quando o indivíduo recupera seu poder durante a retrogradação, ele não sente a necessidade de provar nada a ninguém ou de atacar aqueles que antes o controlavam. A sua soberania é tão evidente para si mesmo que ela se torna perceptível aos outros sem esforço. Ao final deste período, quando Plutão retoma o seu curso direto, as ações que nascem dessa nova autoridade interna emergem no mundo com uma força irresistível e inabalável.
Morte-renascimento em camada profunda
Para que possamos compreender a dimensão sagrada do ciclo plutoniano, é preciso recorrer à sabedoria atemporal dos mitos antigos, em especial à jornada de descida de Perséfone ao reino subterrâneo de Hades. Longe de ser apenas uma narrativa de rapto, este mito descreve a iniciação necessária da alma humana, que deve abandonar a superfície ensolarada da vida cotidiana para se confrontar com a densidade do invisível. Perséfone desce como uma jovem ingênua, mas retorna à superfície como a Rainha do Submundo, detentora de segredos que os deuses olímpicos jamais conseguiriam compreender. Plutão retrógrado é este convite solene para a nossa própria descida, um chamado para que nos tornemos reis e rainhas do nosso próprio inconsciente.
Nessa descida arquetípica, deparamo-nos com a realidade da morte e do renascimento em sua camada mais profunda. A morte plutoniana nunca é um fim em si mesma, mas a parte inicial e indispensável de um ciclo de renovação perpétua. No entanto, o ego humano, com sua fixação neurótica pela estabilidade das formas, vivencia essa transição com imensa angústia. Sentimos como se o chão sob os nossos pés estivesse se desfazendo e como se as ferramentas cognitivas que costumávamos utilizar estivessem se tornando subitamente inúteis. Esse desconforto, embora assustador, é profundamente sagrado e fundante, pois apenas quando a velha estrutura do ego é abalada é que a verdadeira essência da nossa individualidade pode emergir debaixo dos escombros.
Neste laboratório do subsolo, a alquimia interior trabalha com o fogo secreto da purificação, operando o que os antigos sábios chamavam de calcinatio. A calcinação consiste em expor a matéria impura a um calor intenso e constante até que ela seja reduzida a um pó fino, livre de todas as suas contingências temporais. No nível psicológico, este fogo atua sobre as nossas ilusões de controle absoluto e sobre as dependências emocionais que criamos para não termos de crescer. É um processo doloroso, sem dúvida, que queima as nossas ilusões mais queridas, mas é também o único processo capaz de forjar em nós uma resiliência indestrutível, preparando-nos para os novos ciclos de vida.
O que fazer bem durante Plutão retrógrado
Durante os meses em que o Senhor das Profundezas realiza a sua caminhada silenciosa em direção ao nosso interior, a qualidade do nosso tempo e das nossas ações deve se alinhar com a vocação essencial do trânsito. A primeira e mais valiosa atitude que podemos adotar é o investimento comprometido em processos de psicoterapia profunda. Esta não é uma época propícia para abordagens terapêuticas superficiais que buscam apenas a adaptação rápida às exigências do mundo produtivo. Pelo contrário, as circunstâncias favorecem a terapia de orientação junguiana, a psicanálise clássica e as abordagens somáticas que consideram o corpo como o depositário de traumas não resolvidos, permitindo que a investigação dos sonhos e o trabalho com os complexos gerem insights de uma profundidade revolucionária.
Além do trabalho psicoterapêutico formal, a prática da escrita autobiográfica revela-se uma ferramenta de poder extraordinário durante esta temporada. Dedicar-se a narrar a própria história pessoal com absoluta honestidade, buscando decifrar os padrões repetitivos e os segredos familiares que herdamos, permite-nos ressignificar a nossa narrativa de vida. Deixamos de nos enxergar como vítimas passivas das circunstâncias e passamos a nos compreender como os heróis de uma jornada mítica de sobrevivência e autodescoberta. A palavra escrita atua, nesse contexto, como o fio de Ariadne que nos guia com segurança pelos labirintos escuros do nosso próprio inconsciente.
Este trânsito favorece também a busca ativa pelo recolhimento voluntário e pelo silêncio contemplativo por meio de retiros espirituais ou psicológicos que valorizem o isolamento saudável. Afastar-se periodicamente do excesso de estímulos digitais e das demandas incessantes de socialização cria o espaço mental necessário para que possamos escutar os sussurros da nossa alma. Nesses momentos de recolhimento, a leitura de obras clássicas de mitologia, psicologia profunda e alquimia hermética atua como um alimento valioso para a nossa imaginação, oferecendo-nos os símbolos necessários para compreendermos a nossa própria travessia subterrânea, restabelecendo a nossa integridade psíquica.
O que evitar durante Plutão retrógrado
Se por um lado existem atitudes que facilitam a travessia de Plutão retrógrado, por outro existem caminhos que podem amplificar consideravelmente a dor típica deste trânsito. A primeira grande advertência que este período nos traz é a de evitar confrontos diretos externos com figuras de autoridade ou pessoas influentes em nossa vida pessoal e profissional. Discussões teatrais de poder com chefes tirânicos ou acertos de contas agressivos com parceiros afetivos raramente terminam bem sob essa influência cósmica. O combate externo neste período drena as nossas forças sem gerar uma verdadeira resolução, servindo apenas para nos prender ainda mais nas redes da nossa própria sombra e afastar-nos da real transformação.
Outro erro frequente que devemos nos esforçar para contornar é a tomada de decisões drásticas e definitivas sobre relacionamentos íntimos no calor de uma crise interna emergente. A angústia gerada pela dissolução dos velhos padrões da identidade pode projetar-se inteiramente sobre a nossa relação afetiva, fazendo com que o parceiro pareça o único responsável pelo nosso sentimento de vazio ou opressão. Sob o impulso desesperado de aliviar essa dor, o ego pode ser tentado a romper abruptamente o vínculo conjugal, acreditando que a demolição externa resolverá o seu conflito interior. O correto é recolher a projeção, processar o desconforto internamente com paciência e aguardar que a poeira assente antes de tomar decisões práticas definitivas.
Devemos também resistir vigorosamente à tentação da vingança ou do ressentimento cultivado como uma forma de recuperar o poder que sentimos ter perdido. A vingança é uma armadilha plutoniana terrível que nos mantém acorrentados ao mesmo nível vibratório do agressor, impedindo que a verdadeira cura ocorra. Finalmente, é prudente evitar o uso de grandes aquisições materiais ou de investimentos monumentais como uma tentativa desesperada de comprar uma nova identidade. Diante da sensação de insatisfação crônica e de morte simbólica que acompanha a retrogradação, o ego pode tentar se anestesiar de forma artificial por meio do consumo, o que gera apenas endividamento financeiro e arrependimento posterior.
Mitos comuns sobre Plutão retrógrado
Como ocorre com todos os planetas que regem processos de crise e transição psicológica, Plutão atrai ao seu redor uma quantidade significativa de mitos e leituras deterministas que obscurecem sua verdadeira dimensão arquetípica. O mito mais difundido e que causa maior pavor é a crença de que a temporada de Plutão retrógrado traz inevitavelmente a morte física de pessoas queridas ou do próprio indivíduo. Trata-se de uma leitura literalista e infantil de um símbolo que opera primariamente na dimensão psicológica e espiritual. A morte que Plutão exige é, em primeiro lugar, a morte de uma atitude neurótica, a dissolução de um apego cego e a ruína de uma máscara de arrogância que nos impedia de acessar a nossa verdadeira humanidade.
Outro equívoco comum é a difusão da narrativa apocalíptica de que o período em que Plutão caminha para trás representa uma fase de azar absoluto e ruína inevitável, onde todos os nossos projetos estão fadados ao fracasso. Esta visão melodramática ignora que a retrogradação plutoniana não é um castigo divino, mas sim um período de imensa cura psicológica e desobstrução de canais psíquicos que estavam entupidos pelo orgulho ou pelo medo, abrindo caminho para uma torrente de vitalidade renovada. Enxergar este trânsito como mera desgraça é privar-se da oportunidade de testemunhar a extraordinária capacidade de regeneração da alma humana.
Por fim, é crucial desmistificar a ideia rígida de que a retrogradação de Plutão proíbe qualquer tipo de ação ou transformação no plano material da vida. Alguns intérpretes sugerem que as pessoas devem permanecer em estado de absoluta inércia prática durante esses meses, adiando novos negócios ou mudanças. O trânsito de Plutão retrógrado não nos impede de agir no mundo externo ou de construir projetos. O que ele exige é que essas ações externas sejam o reflexo direto de um alinhamento interno genuíno, livres do desejo infantil de controle egoico.
Como navegar Plutão retrógrado maduramente
Navegar pela temporada de Plutão retrógrado com maturidade exige o desenvolvimento de uma postura interna que saiba conciliar a força e a doçura, a coragem e a flexibilidade. O primeiro princípio fundamental desta travessia é a atitude de rendição consciente. A verdadeira rendição plutoniana é um ato de soberania espiritual, onde o ego reconhece que suas pretensões de controle absoluto sobre a realidade são infantis e que existe uma inteligência psíquica maior que rege os ritmos do seu desenvolvimento pessoal. Render-se significa deixar de lutar contra a dissolução dos velhos padrões, permitindo que a água da verdade desfaça as nossas ilusões mais queridas, com a convicção de que o que for verdadeiro sobreviverá.
O segundo princípio vital é a construção e o fortalecimento de um recipiente consciente robusto. O mergulho no inconsciente e a emergência da sombra pessoal não devem ser feitos de forma descuidada, sob o risco de fragmentar as defesas necessárias do ego. Para que possamos conter o material vulcânico que sobe dos abismos da alma — as dores antigas, a raiva reprimida, os medos inconscientes —, precisamos de uma mente consciente estruturada e compassiva, capaz de observar a tempestade de emoções sem ser arrastada por ela, oferecendo um porto seguro para as partes de nós mesmos que estão assustadas ou feridas.
O terceiro princípio consiste em assumir a responsabilidade irrestrita pela nossa própria cura e soberania emocional, parando de apontar culpados pelo nosso estado atual e reconhecendo a nossa própria cumplicidade nas dinâmicas de infelicidade que criamos ao nosso redor. Finalmente, é preciso manter viva a consciência de que a retrogradação é apenas metade de um ciclo maior. Quando os meses de introspecção chegarem ao fim e Plutão retomar o seu movimento direto no céu, a nossa alma estará limpa e estruturada para agir no mundo com uma integridade renovada. Até lá, cabe-nos honrar o tempo de descida, sabendo que na terra escura reside a promessa do renascimento.
Próximos passos
Ao encerrarmos esta exploração detalhada sobre a natureza de Plutão retrógrado, o leitor é convidado a traduzir os conhecimentos conceituais aqui reunidos em práticas reflexivas cotidianas, integrando a sabedoria do submundo em sua realidade vivida. O passo prático mais imediato e revelador consiste em examinar com atenção o próprio mapa astral de nascimento, localizando a casa astrológica que está sendo atravessada pelo trânsito atual de Plutão e onde o planeta realiza suas idas e vindas cíclicas. É nesta área específica da vida que a câmara de transformação interna está instalada. Compreender essa geografia celeste pessoal permite-nos direcionar os nossos esforços de autoconhecimento e terapia com precisão cirúrgica, trabalhando em harmonia com as marés invisíveis do nosso destino.
Por fim, é fascinante contemplar como o trabalho subterrâneo de Plutão se conecta e se harmoniza com as outras retrogradações transgeracionais anuais, como as de Netuno e Urano. Juntos, estes três gigantes do sistema solar externo atuam como os arquitetos invisíveis da evolução da psique humana. Enquanto Urano retrógrado promove a libertação de velhos dogmas mentais e o despertar da nossa individualidade excêntrica, e Netuno retrógrado dissolve as ilusões do ego em direção à união espiritual, Plutão retrógrado nos convida a purificar as nossas estruturas instintivas e a integrar a nossa sombra. Ao honrarmos o chamado de Plutão para decermos às nossas profundezas, pavimentamos o caminho para que a liberdade uraniana seja verdadeiramente emancipada e a compaixão netuniana seja genuinamente vivida, unindo os abismos e as alturas no mistério de quem somos.